Os produtos foram desenvolvidos em cocriação a partir de oficinas realizadas por Mana junto ao grupo de artesãs. Os encontros realizados na casa de Twry na comunidade da Maré (RJ), por trás dos tapumes da Linha Vermelha, foram carregados de histórias, vivências e experimentações de materiais, que permitiram a criação de uma linha inspirada neste objeto considerado mágico em algumas culturas.

A artesã Twry aprendeu a fazer filtros dos sonhos na infância, em sua aldeia, de onde saiu para o Rio de Janeiro aos 15 anos, porque não se conformava com as dificuldades que seu povo passava. Sempre questionadora e com espírito de liderança, criou o grupo Mães da Maré em 2010, onde dez mulheres se reúnem para criar seus produtos. Essa peça tão simbólica chamou a atenção da designer, que desenvolveu junto com Twry, Cidinha e as artesãs do grupo um novo filtro dos sonhos, reaproveitando o PET e transformando-o em filetes que seriam tramados à mão para a criação da teia. É um trabalho de extrema técnica e perfeccionismo ao qual todas do grupo se dedicam.
O círculo do filtro é feito de um arco de cipó que Twry recolhe ela mesma em uma região de mata na cidade de Niterói. Ela molda o material colocando-o no formato e o deixa secar por uma semana. Angela e Zezé forram o cipó com os tecidos doados pela Rede Asta. O círculo é também um símbolo da união destas mulheres em torno de um mesmo objetivo, um mesmo fim. Aliás, o significado do nome indígena Twry é união. Não poderia ser melhor, não é?

O filtro dos sonhos é um objeto de proteção de origem na cultura dos índios norte-americanos. O centro da teia corresponde ao Grande Mistério, a Força que abrange o Universo. Acredita-se que ele filtre os sonhos, deixando passar os bons e retendo os maus sonhos em sua teia, que se dissipam aos primeiros raios de sol da manhã.
“Esses filtros de filetes de garrafas parecem mesmo as sábias teias de aranhas. Assim transpassam os espaços pendurados nas janelas como mandalas flutuantes e levam a gente pra um lugar entre o sonho e a realidade, o que existe e o que pode ser construído. E mais importante do que isso, esse objeto tem um mistério e isso no ar fica muito bonito.”
Mana Bernardes